<?xml version="1.0" encoding="UTF-8"?><rss xmlns:dc="http://purl.org/dc/elements/1.1/" xmlns:content="http://purl.org/rss/1.0/modules/content/" xmlns:atom="http://www.w3.org/2005/Atom" version="2.0" xmlns:itunes="http://www.itunes.com/dtds/podcast-1.0.dtd" xmlns:googleplay="http://www.google.com/schemas/play-podcasts/1.0"><channel><title><![CDATA[Substack de Maria]]></title><description><![CDATA[Meu Substack pessoal]]></description><link>https://amariaclaramenezes.substack.com</link><image><url>https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!EpmL!,w_256,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F135ff8ac-5eb7-4db9-995b-42c2af7a6a94_1167x1167.png</url><title>Substack de Maria</title><link>https://amariaclaramenezes.substack.com</link></image><generator>Substack</generator><lastBuildDate>Tue, 25 Aug 2026 10:19:01 GMT</lastBuildDate><atom:link href="https://amariaclaramenezes.substack.com/feed" rel="self" type="application/rss+xml"/><copyright><![CDATA[Maria Clara Menezes]]></copyright><language><![CDATA[pt-br]]></language><webMaster><![CDATA[amariaclaramenezes@substack.com]]></webMaster><itunes:owner><itunes:email><![CDATA[amariaclaramenezes@substack.com]]></itunes:email><itunes:name><![CDATA[Maria Clara Menezes]]></itunes:name></itunes:owner><itunes:author><![CDATA[Maria Clara Menezes]]></itunes:author><googleplay:owner><![CDATA[amariaclaramenezes@substack.com]]></googleplay:owner><googleplay:email><![CDATA[amariaclaramenezes@substack.com]]></googleplay:email><googleplay:author><![CDATA[Maria Clara Menezes]]></googleplay:author><itunes:block><![CDATA[Yes]]></itunes:block><item><title><![CDATA[MARILENE]]></title><description><![CDATA[Marilene s&#243; n&#227;o mentia pra pr&#243;pria sombra porque, tendo mentido pra si mesma, acreditava que a sombra se chamava Jorge.]]></description><link>https://amariaclaramenezes.substack.com/p/marilene</link><guid isPermaLink="false">https://amariaclaramenezes.substack.com/p/marilene</guid><dc:creator><![CDATA[Maria Clara Menezes]]></dc:creator><pubDate>Fri, 24 Jul 2026 16:36:15 GMT</pubDate><enclosure url="https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/a5a1504e-b7f0-4e1f-98fb-c1073cd29bc5_463x600.jpeg" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Marilene s&#243; n&#227;o mentia pra pr&#243;pria sombra porque, tendo mentido pra si mesma, acreditava que a sombra se chamava Jorge. E n&#227;o se podia confiar em Jorge. Marilene n&#227;o fugia daquilo que se espera do mentiroso. Era ardilosa, trocava vantagens, sentia uma imensa satisfa&#231;&#227;o em ver os olhos do enganado. No princ&#237;pio, Marilene mentia pra auferir conveni&#234;ncias, mentia finan&#231;as, mentia atrasos, mentia lugares. Foi traindo assim namorados, chefes, colegas de classe, pai, m&#227;e. Marilene era uma mulher bonita, corpulenta. Era o que mentiu pra si hoje de manh&#227; no espelho. Na verdade, j&#225; n&#227;o sabia mais se era uma mulher. N&#227;o tinha tamb&#233;m a certeza de ser um homem. &#192;s vezes podia apostar ser uma barata de sete saias. Lamentavelmente n&#227;o posso assegurar ao leitor a esp&#233;cie de Marilene, porque tendo mentido tamb&#233;m para este narrador parcosciente, disse ser um baob&#225; de 327 anos. J&#225; n&#227;o sei mais tamb&#233;m se sou um narrador, ou se sou Marilene. Ou se Marilene se chama, de fato, Marilene. Se minha mem&#243;ria n&#227;o mente pra mim, Marilene era uma velha. Muito enrugada, muito d&#243;cil, daquelas que se p&#245;e a m&#227;o no fogo que nunca mentiria pra voc&#234;, nunca, a pobre dona Marilene. Me recebeu bem, caf&#233;, bolo. Bom, ela disse que tinha caf&#233; e bolo, eu n&#227;o vi. Pode ser que tenha visto e ela disse que n&#227;o vi, n&#227;o tenho certeza. A primeira pergunta que fiz foi como coube um baob&#225; de 327 anos num apartamento pequeno no Graja&#250;. Ela me disse que baratas s&#227;o compactas, cabem em qualquer lugar, o problema mesmo s&#227;o as saias. </p><p style="text-align: justify;">O leitor pode se perguntar o que um jornalista experiente como eu foi fazer na casa de um velho baob&#225; mentiroso. Eu tamb&#233;m n&#227;o sei, n&#227;o tenho certeza tamb&#233;m de ser jornalista, mas lembro que na manh&#227; de hoje, andando na rua, me parou uma menina, de uns oito, nove anos, que disse que tinha uma emerg&#234;ncia. Emerg&#234;ncia pra jornalista. Eu, que sou m&#233;dico cardiologista, atendi prontamente. Tenho sangue frio pra emerg&#234;ncias. Foi a&#237; que entrei na casa da menina, que acho que se chamava Marilene. A casa tinha mesmo, pensando aqui, um furo no telhado de onde se via a copa do baob&#225;, bem alto. Entrando, fui assediado por uma infesta&#231;&#227;o de baratas, que pareciam ser a fam&#237;lia de Marilene. Acho que de alguma maneira sabiam todas que eu era advogado e precisavam de consultas, certamente gratuitas, sobre suas aposentadorias e pens&#245;es e div&#243;rcios e filhos presos. Atendi uma a uma, explicando que mioc&#225;rdio &#233; coisa s&#233;ria e que tem que ter cuidado redobrado. </p><p style="text-align: justify;">Me liga o editor do jornal, pela oitava vez, perguntando em que caralhos de lugar eu estava que n&#227;o no gabinete do governador, onde estavam todos os ve&#237;culos s&#233;rios de comunica&#231;&#227;o. Eu, que n&#227;o sabia quem era esse cara, desligava imediatamente e mostrava ao baob&#225;, engra&#231;ado, o tanto de chamadas perdidas. A velha trazia o caf&#233;, ligava a televis&#227;o, e enquanto gesticulava deixava cair umas folhas secas. Eu tranquilizava. Sou bot&#226;nico, &#233; outubro, n&#227;o h&#225; do que ter vergonha. O governador na televis&#227;o falava alguma coisa que parecia importante, mas n&#227;o lembro direito porque Marilene, o beb&#234;, chorava copiosamente. Troquei-lhe a fralda, dei de mamar, dormiu o sono dos justos, a baratinha. Fui embora certo de que dei conta da emerg&#234;ncia. Troquei a fralda do governador baob&#225; e lhe pus de pronto a melhor saia, pra coletiva.</p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[Carta ao montador de móveis]]></title><description><![CDATA[Chagas, Tenho certeza de que o Sr. &#233; bem intencionado. E est&#225; a&#237; nossa primeira diverg&#234;ncia.]]></description><link>https://amariaclaramenezes.substack.com/p/carta-ao-montador-de-moveis</link><guid isPermaLink="false">https://amariaclaramenezes.substack.com/p/carta-ao-montador-de-moveis</guid><dc:creator><![CDATA[Maria Clara Menezes]]></dc:creator><pubDate>Sun, 21 Jun 2026 15:12:30 GMT</pubDate><enclosure url="https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/a0fdf615-38e7-4a01-9531-4c753e5a88a2_1920x1478.jpeg" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Chagas, </p><p style="text-align: justify;">Tenho certeza de que o Sr. &#233; bem intencionado. E est&#225; a&#237; nossa primeira diverg&#234;ncia. Estou certa de que se n&#227;o fosse crime, se n&#227;o houvesse remorso, se n&#227;o tivesse perigo, eu lhe procuraria com a porta solta de meu guarda-roupa. Com os parafusos fr&#225;geis, com as gavetas empenadas. Te colocaria sentado, sem d&#250;vidas, na cadeira que um outro montou. Por isso inteira. Percebe, Chagas? Sentado, te amarraria com os lacres da caixa da encomenda. Com o manual de montagem distribuiria pequenos cortes na pele. Com as hastes de alum&#237;nio do cabideiro, a&#237; sim, come&#231;aria a pancadaria. N&#227;o tenho d&#250;vidas, Chagas, de que voc&#234; tem fam&#237;lia e sinceramente me importa muito pouco que sua filha pequena cres&#231;a sem pai. Na verdade, acredito que teria feito a ela um favor. Lamentavelmente me acovardei, Chagas, como tenho feito desde que nasci. O que muito me orgulha, inclusive. Ter tido a coragem de me acovardar. Se eu n&#227;o fosse covarde, se eu n&#227;o dependesse piamente do olhar de admira&#231;&#227;o de quem eu amo. E de quem eu n&#227;o amo. Se eu n&#227;o sentisse medo, se n&#227;o houvesse a puni&#231;&#227;o, voc&#234;, Chagas, estaria junto de muitos outros companheiros que eu pessoalmente, manualmente, artesanalmente, teria precipitado a viagem ao mundo dos mortos. Felizmente para voc&#234;, Chagas, nada disso se deu. Uma &#225;gua, dona? Claro, claro! Gelada? Um caf&#233;zinho? Ficou muito bom, hein, seu Chagas! Obrigada a&#237; por tudo. Beijo na fam&#237;lia! Quando voc&#234; saiu de meu apartamento eu senti um vazio terr&#237;vel. Era uma frustra&#231;&#227;o ver voc&#234; indo embora, intocado, remunerado, satisfeito, inclusive, com o servi&#231;o. Chagas&#8230; Se eu pudesse&#8230;. N&#227;o mandaria ningu&#233;m atr&#225;s de voc&#234;, fique tranquilo, porque jamais terceirizaria a minha fantasia. Mas saiba que se dependesse de mim, o senhor estaria morto. E eu te ligarei novamente. O senhor montar&#225; porcamente outros m&#243;veis de minha casa. Ser&#225; pago, ser&#225; reconhecido. Al&#233;m de covarde, sou esquecida e assim como dediquei estes minutos a odi&#225;-lo intensamente, aparecer&#227;o outros, tantos, que o substituir&#227;o. A raiva &#233; minha, Chagas, e encontro sempre algu&#233;m apto a receb&#234;-la. Lamento que o senhor jamais leia esta carta, at&#233; porque o simples gesto de mand&#225;-la j&#225; teria consequ&#234;ncias e como o senhor p&#244;de perceber, sou avessa &#224;s consequ&#234;ncias. Mas j&#225; me sinto melhor por t&#234;-la escrito, mais livre para odiar o pr&#243;ximo tanto quanto te odiei. Muito obrigada. </p><p style="text-align: justify;">Que esta carta te encontre em sonho, espiritualmente, via fibra &#243;ptica, n&#227;o sei. </p><p style="text-align: justify;">Com os meus sinceros protestos de baixa estima e falta de considera&#231;&#227;o, </p><p style="text-align: justify;">Maria, do 801.</p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[Peixinho]]></title><description><![CDATA[N&#227;o tendo sido a primeira nem a &#250;ltima mulher de sua fam&#237;lia a matar um homem, se contentou em ao menos ser a &#250;nica que o fez por amor.]]></description><link>https://amariaclaramenezes.substack.com/p/peixinho</link><guid isPermaLink="false">https://amariaclaramenezes.substack.com/p/peixinho</guid><dc:creator><![CDATA[Maria Clara Menezes]]></dc:creator><pubDate>Sun, 21 Jun 2026 05:11:34 GMT</pubDate><enclosure url="https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/67e8451e-d582-4e89-9610-a6ea0ee44303_400x340.jpeg" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">N&#227;o tendo sido a primeira nem a &#250;ltima mulher de sua fam&#237;lia a matar um homem, se contentou em ao menos ser a &#250;nica que o fez por amor. Teve a feliz surpresa de v&#234;-lo sem respirar no dia sete de maio de 2013. Foi imediatamente ao padre Celso confessar-se, como fazia regularmente, e com um sorriso de orelha a orelha lhe contou que o marido jazia espalhado pela casa de Pedra Azul em oito peda&#231;os diferentes. Nos lugares que ele mais gostava, Padre! Foi lindo. Primeiro, segurei-o pelos cabelos e atirei aos ladrilhos da cozinha, que manchados do sangue da pancada, ficaram escandalosos, coisa de Adriana Varej&#227;o! Ele ficou meio zonzo e me olhou com a cara de sempre, a do Peixinho, que lhe rendeu o apelido. Nessa hora, padre, que coloquei a panela quente na cara dele, at&#233; ouvir as primeiras borbulhas. Acho que ainda estava acordado quando peguei uma faca de cozinha novinha e cortei lascas da pele, at&#233; removi a tatuagem que ele n&#227;o gostava, da &#233;poca de menino. Ele n&#227;o dizia uma palavra, padre, n&#227;o reagiu. E a&#237; eu ia tentando, continuava. No come&#231;o n&#227;o sabia exatamente que morreria hoje, muito embora sonhasse com isso h&#225; pelo menos tr&#234;s anos, mas Deus &#233; que sabe de todas as coisas, n&#233;? A&#237;, padre, eu fui apoiando o corpo moribundo dele at&#233; a cadeira da sala e coloquei-o sentado. J&#225; estava irreconhec&#237;vel, um pr&#237;ncipe! Peguei uma sacola e colocava na cabe&#231;a dele por alguns segundos, at&#233; que nem que fosse por instinto a criatura me desse sinal de vida, ao que eu respondia com um afago, agradecendo. Peixinho sempre foi bom demais pra mim, sabe, padre? Bom demais. E isso me irritava porque o que eu haveria de fazer com um homem bom? N&#227;o tinha a menor experi&#234;ncia com isso, pra ser sincera eu nem sabia que existia. Nos filmes n&#227;o tem, nos livros, l&#225; em casa nunca tinha visto e todos os que tinham passado pela minha vida antes n&#227;o o eram. Guardo por eles o maior carinho, padre. Tempo bom. Quando enjoei da sacola vi que ele ainda respirava, ent&#227;o eu devia ter ali pela frente mais umas seis horas de divers&#227;o. Tive que ir inovando, enfiava a cabe&#231;a num balde, colocava m&#250;sica alta demais, aquelas de pagod&#227;o baiano. Na hora da m&#250;sica eu pensei muito, viu padre? Porque eu fiquei com a d&#250;vida: Como que eu vou perturbar o cara que n&#227;o se perturba com nada? Lembro da primeira vez que tra&#237; ele, l&#225; pra 2007, e deixei tudo pra ele descobrir: cueca do outro no carro, mensagem no celular. Quando j&#225; tinha uns tr&#234;s meses de trai&#231;&#227;o eu contei pra ele. Ele respondeu: Se te faz bem.... Eu fiquei doida. No dia seguinte ele chegou em casa com uma caixa de bem-casados, meu doce favorito, que sempre reclamo que s&#243; consigo comer quando algu&#233;m se fode em algum lugar e d&#225; festa. Ele mandou fazer. Ele amava minha fam&#237;lia. Virou padrinho da minha sobrinha. Devoto de Santa Rita de C&#225;ssia por causa da minha m&#227;e. A&#237; eu falava pra ele que eu era macumbeira, e ele ia no terreiro comigo. S&#243; que eu n&#227;o era macumbeira, padre. A&#237; eu falei que eu era Lula, depois virei Bolsonaro, e tudo ele ia atr&#225;s. N&#227;o queria que eu andasse sozinha de noite, que eu pegasse chuva, que eu pegasse peso, pagou todas as contas de restaurante desde que eu o conheci. Fazia massagem nos meus ombros. Tive bruxismo e ele aprendeu a fazer a placa, mesmo sendo contador. Quis alisar o cabelo, e ele alisou. Ele vestia amarelo, eu dizia que odiava amarelo, e ele voltava de azul. Nunca mais usou amarelo. Falei pra ele que queria ter filhos, e ele chorou de emo&#231;&#227;o, disse que queria, que ia ser nossa fam&#237;lia, que eu era a mulher da vida dele. Desisti na hora, puta que pariu! Desculpa, padre. Dia seguinte voltei pra p&#237;lula. A&#237; falei pra ele que n&#227;o ia mais ser m&#227;e de jeito nenhum e que detestava crian&#231;a. Ele respondeu que entendia e que essa decis&#227;o tinha que ser minha mesmo. N&#227;o dava mais n&#227;o padre, era demais. A&#237; eu fui torturando ele, fazendo da vida dele um inferno, pra ver se ele separava de mim, me xingava, falava mal de mim pelas costas, pela frente, sei l&#225;. Nada. Comecei a dormir fora de casa. Ele era al&#233;rgico &#224; camar&#227;o, ent&#227;o segunda era bob&#243;, ter&#231;a empad&#227;o, quarta abar&#225;, tudo bem temperadinho. O bicho comia pra n&#227;o fazer desfeita e depois ia sozinho pra Emerg&#234;ncia ser medicado. Ele dizia que n&#227;o gostava de mulher muito magra, emagreci. A&#237; come&#231;ou a gostar. Engordei. Botei peito, tirei peito, raspei o cabelo. Ele adorava bicho, o franciscano, e esses dias chutei um cachorro na frente dele e ele n&#227;o fez nada. Hoje eu acordei avessa, padre, n&#227;o dava mais pra esperar. N&#227;o sei, tava agitada, impaciente. A&#237; fervi a &#225;gua do caf&#233; e joguei nas partes dele. J&#225; tava na cozinha e come&#231;ou tudo que eu contei do azulejo, etc. Acho que ele s&#243; morreu mesmo com o travesseiro, que no final eu j&#225; tava de saco cheio e asfixiei ele. Vi que n&#227;o tava mais respirando e fiquei em &#234;xtase. Melhor momento da nossa vida a dois. Falei pra ele: Benzinho, obrigada por tudo!!! Cortei duas pernas, dois bra&#231;os, o tronco em dois e a cabe&#231;a no meio. Tudo com a motosserra que ele tinha comprado pra fazer m&#243;vel de madeira porque advinha, eu gostava de m&#243;vel de madeira. Tadinho, fiquei com pena, aquela casinha ali foi ele que subiu, j&#225; que eu gostava de passear aqui em Pedra Azul. Fui espalhando os pedacinhos dele nos cantos, pedindo a Nossa Senhora pra guardar ele em bom lugar. Acho que vou largar aquela casa pra ele, sabe padre? Largar tudo pra l&#225;? Vou &#233; viajar, arrumar confus&#227;o, gritar pros outros na rua. T&#244; feliz demais. Nem sei porque t&#244; tomando o tempo todo do senhor com isso. Confessar n&#233;? Ent&#227;o padre o que eu queria falar mesmo &#233; desse lance do cachorro. Tadinho, criatura de Deus, n&#233;? E eu maltratei s&#243; pra atingir o Peixinho. Deus que me perdoe! A pessoa pra maltratar um bichinho indefeso tem que ser muito ruim. O senhor me d&#225; o perd&#227;o, padre? N&#227;o vou conseguir viver com esse fardo por muito mais tempo. O padre Celso ficou num silencio eloquente por uns tr&#234;s minutos. Padre? T&#225; a&#237;? Tr&#234;s pai nossos e tr&#234;s ave marias, minha filha. Deus te aben&#231;oe, padre.</p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[O recesso]]></title><description><![CDATA[Quando bati o dedo na quina do corredor, entendi imediatamente a magnitude do que me ocorrera.]]></description><link>https://amariaclaramenezes.substack.com/p/o-recesso</link><guid isPermaLink="false">https://amariaclaramenezes.substack.com/p/o-recesso</guid><dc:creator><![CDATA[Maria Clara Menezes]]></dc:creator><pubDate>Sun, 21 Jun 2026 04:49:35 GMT</pubDate><enclosure url="https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/90de11b2-0cb4-4baf-9e3c-7a6ff1e536db_1577x1920.jpeg" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Quando bati o dedo na quina do corredor, entendi imediatamente a magnitude do que me ocorrera. N&#227;o porque o dedo sangrava, agora j&#225; arroxeado, com a unha torta e inflamada. Nem porque xinguei desproporcionalmente ao quanto do&#237;a, como se fosse a topada uma oportunidade de maldizer tudo o que queria ter amaldi&#231;oado por motivos outros, sem ter uma boa desculpa. Muito menos porque a s&#237;ndica interfonou a perguntar sobre o barulho, ou porque meu marido me veio socorrer ao desmaio. Tenho pavor de sangue. Enquanto via o sangue e xingava e sentia a press&#227;o cair e desmaiava, fui muito feliz. Entre os segundos que separaram a topada primeira, a do dedinho, daquela que se deu depois, a de minha cabe&#231;a contra o porcelanato, estive absolutamente serena. A sensa&#231;&#227;o de n&#227;o ter outra prioridade que n&#227;o a de desmaiar &#233; maravilhosa, de modo que pude gozar desse tempo para n&#227;o ajudar o menino a se limpar, que era o que eu estava indo fazer quando me acometeu o tr&#225;gico acidente. Felizmente tamb&#233;m, durante a queda, n&#227;o tive de me preocupar em atender o telefone, que tocava, por certo a chefe. Ou a Vivo. Ou a sogra. Irrelevante, agora, que estou desmaiada. Bom, meu marido pensa que estou desmaiada. Meu filho tamb&#233;m. Esse foi o maior inconveniente. Com cinco anos, ou quatro, j&#225; n&#227;o me lembro bem, ele gritava &#8220;Mam&#227;e!&#8221;, mexia em mim, chorava. Um saco. Meu marido, outro problema, que me dava tapas falando &#8220;&#194;ngela, &#194;ngela, acorda, acorda!&#8221;. N&#227;o quero acordar, definitivamente. Meu marido &#233; um pouco feio e meu filho puxou a ele.</p><p style="text-align: justify;">Lamentavelmente n&#227;o tive muito tempo em casa, porque gra&#231;as ao zelo de meu marido e &#224; prontid&#227;o dos socorristas, fui levada ao hospital. O trajeto foi dif&#237;cil, porque a vontade de rir foi dura de controlar. O filho teve de ficar no 801, sob os cuidados da dona Ruth, que ele odeia, tem medo, chama de bruxa do 71. S&#243; a&#237; eu j&#225; estava me deleitando. Meu marido, para o meu azar, me acompanhou na ambul&#226;ncia, rezando, pedindo &#224; Deus pra que me cuidasse, pra que eu acordasse, dizendo que n&#227;o sabe viver sem mim. Novidade! Queria muito que soubesse.</p><p style="text-align: justify;">No hospital fiquei profundamente constrangida. N&#227;o tinha previsto como seria para uma mulher vaidosa e pretensamente forte como eu ter de ser internada porque topou o dedinho. E viu sangue. E tendo medo do sangue, desmaiou. E, aproveitando a oportunidade, manteve-se desmaiada. Para ficar longe do filho. E do marido. Certamente sabia que deveria acordar. E dizer ao Paulo; veja, Vida, como Deus &#233; misericordioso! Infinita bondade. Nada s&#233;rio aconteceu, que b&#234;n&#231;&#227;o. Mas fato &#233; que n&#227;o tive coragem de abrir os olhos e dar de cara com a fei&#231;&#227;o feia de meu marido. Um homem que &#233; feio feliz haveria de ser muito pior preocupado. Comecei a me esquecer de como era sua real fisionomia e fui adicionando tra&#231;os que agu&#231;assem sua monstruosidade. Pude ver Paulo com tr&#234;s olhos, dois azuis e um preto, ao centro. Um nariz de onde escorria espaguete &#224; bolonhesa. Uma orelha s&#243;, triangular, de onde sairia um odor insuport&#225;vel. A boca com dentes moles, amarelados, que iam caindo &#224; medida que ele falava. Na hora dos dentes dei uma risadinha. Que vacilo! Na mesma hora o Obsessor come&#231;ou: &#8220;&#194;ngela, &#194;ngela!&#8221;. Porra, que mole. &#201; sempre no detalhe.</p><p style="text-align: justify;">N&#227;o teve jeito, tive de acordar. Claro que lentamente, fingindo desorienta&#231;&#227;o. Paulo, balbuciei. Meu amor! Gra&#231;as a Deus! Inferno. A essa altura eram poucas as minhas op&#231;&#245;es. Ou ficar boa, o que seria tr&#225;gico, e voltar &#224; casa e ao filho e ao marido. Ou fingir novamente o desmaio, o que seria tosco, ainda mais diante da plateia qualificada que eu tinha agora. Ou valorizar os sintomas, enquanto pensava melhor. Recobrando os sentidos, vi de canto de olho uma enfermeira feia, cansada, que muito possivelmente pensou em desmaiar, s&#243; hoje, pelo menos tr&#234;s vezes. Tive certeza de que me entenderia. Precisava tirar Paulo do quarto para conversar a s&#243;s com ela. Bingo! O filho! A prioridade de uma m&#227;e, sempre, claro! Paulo! Cad&#234; meu filho? Onde est&#225; meu filho? Est&#225; com a Dona Ruth, &#194;ngela. N&#227;o, Paulo, ele detesta Ruth! Vai agora, fica com ele. T&#225; doida, &#194;ngela? N&#227;o vou deixar voc&#234; aqui. Paulo n&#227;o vou sossegar enquanto voc&#234; n&#227;o tirar o menino da casa daquela velha porca. Eu me cuido aqui, estou bem, tem os m&#233;dicos. Que deleite ver que a frequ&#234;ncia card&#237;aca aumentava, boa atriz que sou, corroborando com toda a minha narrativa. A enfermeira feia, que dama. Vendo a situa&#231;&#227;o, disse: Pode ir, seu Paulo, ela est&#225; em boas m&#227;os aqui. Paulo me beijou a testa, disse que ia rapidinho, que voltava logo, que eu n&#227;o me preocupasse e foi tirar o remelento da casa da velha pra depositar no cativeiro em que mora sua m&#227;e, outra velha, t&#227;o feia e at&#233; mais porca que Dona Ruth, mas familiar. Quando o feio com que me casei deixou o quarto do hospital, me olhou a enfermeira como quem aguarda instru&#231;&#245;es sobre os pr&#243;ximos passos.</p><p style="text-align: justify;">Como quer fazer? Me perguntou a enfermeira feia. De pronto confesso que n&#227;o entendi. E ela perguntou, impaciente: Quer que dure quanto? Dure o qu&#234;? Porra! Me ajuda a te ajudar, como voc&#234; tem v&#225;rias e eu n&#227;o tenho o dia todo. O recesso. Quer que dure quanto? Quer ficar quanto tempo longe da fam&#237;lia? Umas horas, uns dias, pra sempre? Pra sempre, perguntei. &#201;, t&#225; crescendo muito essa. Como que fica? Ah, a gente fala que evoluiu n&#233;. Infec&#231;&#227;o hospitalar sempre vende muito. D&#225; tr&#234;s dias e a senhora t&#225; liberada. Sai mais caro porque tem todo o tr&#226;mite n&#233;, alugar a gaveta, forjar a certid&#227;o, sepultamento. Se a senhora quiser tamo at&#233; com um servi&#231;o, desde a pandemia t&#225; saindo muito, de dizer que o morto t&#225; contaminado e deixar o caix&#227;o fechado, bom que a senhora ganha uns dias n&#233;. Mas tudo &#224; parte. Sai &#224; quanto essa brincadeira? Esse complet&#227;o a&#237;? Olha no pix fa&#231;o pre&#231;o bom pra senhora. No cr&#233;dito tem uns jurinhos mas parcela at&#233; 15 vezes. T&#225; show. Vou fazer &#224; vista, estava juntando pra festinha de cinco anos do menino, ou seis, n&#227;o tenho certeza, bom que j&#225; tinha uma poupancinha. Foi tudo muito organizado, indico de olhos fechados, at&#233; porque era como eu estava mesmo. Mal o Paulo chegou e eu j&#225; estava ardendo em febre. A press&#227;o baix&#237;ssima, fraqueza, tudo que comia vomitava. Mancha no corpo, dor nas articula&#231;&#245;es. Isso tudo sem eu sentir nada, s&#243; pra que Paulo visse. No segundo dia de interna&#231;&#227;o j&#225; me afastaram dele. Sinto muito, seu Paulo, mas o Sr. n&#227;o pode mais ficar aqui. &#201; contagioso. Pimba, terceiro dia j&#225; tava tudo no esquema. Dia 16 de agosto fui dada como morta. Nem quis mais ver filho, marido, nada. At&#233; me ofereceram, parece que tamb&#233;m vende muito, essa coisa de ir ao pr&#243;prio vel&#243;rio. N&#227;o quis nem saber, fui embora, tudo pra tr&#225;s. Bendito seja o pedreiro que construiu a quina em que bati o dedinho pela primeira vez.</p>]]></content:encoded></item></channel></rss>