Marilene só não mentia pra própria sombra porque, tendo mentido pra si mesma, acreditava que a sombra se chamava Jorge. E não se podia confiar em Jorge. Marilene não fugia daquilo que se espera do mentiroso. Era ardilosa, trocava vantagens, sentia uma imensa satisfação em ver os olhos do enganado. No princípio, Marilene mentia pra auferir conveniências, mentia finanças, mentia atrasos, mentia lugares. Foi traindo assim namorados, chefes, colegas de classe, pai, mãe. Marilene era uma mulher bonita, corpulenta. Era o que mentiu pra si hoje de manhã no espelho. Na verdade, já não sabia mais se era uma mulher. Não tinha também a certeza de ser um homem. Às vezes podia apostar ser uma barata de sete saias. Lamentavelmente não posso assegurar ao leitor a espécie de Marilene, porque tendo mentido também para este narrador parcosciente, disse ser um baobá de 327 anos. Já não sei mais também se sou um narrador, ou se sou Marilene. Ou se Marilene se chama, de fato, Marilene. Se minha memória não mente pra mim, Marilene era uma velha. Muito enrugada, muito dócil, daquelas que se põe a mão no fogo que nunca mentiria pra você, nunca, a pobre dona Marilene. Me recebeu bem, café, bolo. Bom, ela disse que tinha café e bolo, eu não vi. Pode ser que tenha visto e ela disse que não vi, não tenho certeza. A primeira pergunta que fiz foi como coube um baobá de 327 anos num apartamento pequeno no Grajaú. Ela me disse que baratas são compactas, cabem em qualquer lugar, o problema mesmo são as saias.
O leitor pode se perguntar o que um jornalista experiente como eu foi fazer na casa de um velho baobá mentiroso. Eu também não sei, não tenho certeza também de ser jornalista, mas lembro que na manhã de hoje, andando na rua, me parou uma menina, de uns oito, nove anos, que disse que tinha uma emergência. Emergência pra jornalista. Eu, que sou médico cardiologista, atendi prontamente. Tenho sangue frio pra emergências. Foi aí que entrei na casa da menina, que acho que se chamava Marilene. A casa tinha mesmo, pensando aqui, um furo no telhado de onde se via a copa do baobá, bem alto. Entrando, fui assediado por uma infestação de baratas, que pareciam ser a família de Marilene. Acho que de alguma maneira sabiam todas que eu era advogado e precisavam de consultas, certamente gratuitas, sobre suas aposentadorias e pensões e divórcios e filhos presos. Atendi uma a uma, explicando que miocárdio é coisa séria e que tem que ter cuidado redobrado.
Me liga o editor do jornal, pela oitava vez, perguntando em que caralhos de lugar eu estava que não no gabinete do governador, onde estavam todos os veículos sérios de comunicação. Eu, que não sabia quem era esse cara, desligava imediatamente e mostrava ao baobá, engraçado, o tanto de chamadas perdidas. A velha trazia o café, ligava a televisão, e enquanto gesticulava deixava cair umas folhas secas. Eu tranquilizava. Sou botânico, é outubro, não há do que ter vergonha. O governador na televisão falava alguma coisa que parecia importante, mas não lembro direito porque Marilene, o bebê, chorava copiosamente. Troquei-lhe a fralda, dei de mamar, dormiu o sono dos justos, a baratinha. Fui embora certo de que dei conta da emergência. Troquei a fralda do governador baobá e lhe pus de pronto a melhor saia, pra coletiva.

