Quando bati o dedo na quina do corredor, entendi imediatamente a magnitude do que me ocorrera. Não porque o dedo sangrava, agora já arroxeado, com a unha torta e inflamada. Nem porque xinguei desproporcionalmente ao quanto doía, como se fosse a topada uma oportunidade de maldizer tudo o que queria ter amaldiçoado por motivos outros, sem ter uma boa desculpa. Muito menos porque a síndica interfonou a perguntar sobre o barulho, ou porque meu marido me veio socorrer ao desmaio. Tenho pavor de sangue. Enquanto via o sangue e xingava e sentia a pressão cair e desmaiava, fui muito feliz. Entre os segundos que separaram a topada primeira, a do dedinho, daquela que se deu depois, a de minha cabeça contra o porcelanato, estive absolutamente serena. A sensação de não ter outra prioridade que não a de desmaiar é maravilhosa, de modo que pude gozar desse tempo para não ajudar o menino a se limpar, que era o que eu estava indo fazer quando me acometeu o trágico acidente. Felizmente também, durante a queda, não tive de me preocupar em atender o telefone, que tocava, por certo a chefe. Ou a Vivo. Ou a sogra. Irrelevante, agora, que estou desmaiada. Bom, meu marido pensa que estou desmaiada. Meu filho também. Esse foi o maior inconveniente. Com cinco anos, ou quatro, já não me lembro bem, ele gritava “Mamãe!”, mexia em mim, chorava. Um saco. Meu marido, outro problema, que me dava tapas falando “Ângela, Ângela, acorda, acorda!”. Não quero acordar, definitivamente. Meu marido é um pouco feio e meu filho puxou a ele.
Lamentavelmente não tive muito tempo em casa, porque graças ao zelo de meu marido e à prontidão dos socorristas, fui levada ao hospital. O trajeto foi difícil, porque a vontade de rir foi dura de controlar. O filho teve de ficar no 801, sob os cuidados da dona Ruth, que ele odeia, tem medo, chama de bruxa do 71. Só aí eu já estava me deleitando. Meu marido, para o meu azar, me acompanhou na ambulância, rezando, pedindo à Deus pra que me cuidasse, pra que eu acordasse, dizendo que não sabe viver sem mim. Novidade! Queria muito que soubesse.
No hospital fiquei profundamente constrangida. Não tinha previsto como seria para uma mulher vaidosa e pretensamente forte como eu ter de ser internada porque topou o dedinho. E viu sangue. E tendo medo do sangue, desmaiou. E, aproveitando a oportunidade, manteve-se desmaiada. Para ficar longe do filho. E do marido. Certamente sabia que deveria acordar. E dizer ao Paulo; veja, Vida, como Deus é misericordioso! Infinita bondade. Nada sério aconteceu, que bênção. Mas fato é que não tive coragem de abrir os olhos e dar de cara com a feição feia de meu marido. Um homem que é feio feliz haveria de ser muito pior preocupado. Comecei a me esquecer de como era sua real fisionomia e fui adicionando traços que aguçassem sua monstruosidade. Pude ver Paulo com três olhos, dois azuis e um preto, ao centro. Um nariz de onde escorria espaguete à bolonhesa. Uma orelha só, triangular, de onde sairia um odor insuportável. A boca com dentes moles, amarelados, que iam caindo à medida que ele falava. Na hora dos dentes dei uma risadinha. Que vacilo! Na mesma hora o Obsessor começou: “Ângela, Ângela!”. Porra, que mole. É sempre no detalhe.
Não teve jeito, tive de acordar. Claro que lentamente, fingindo desorientação. Paulo, balbuciei. Meu amor! Graças a Deus! Inferno. A essa altura eram poucas as minhas opções. Ou ficar boa, o que seria trágico, e voltar à casa e ao filho e ao marido. Ou fingir novamente o desmaio, o que seria tosco, ainda mais diante da plateia qualificada que eu tinha agora. Ou valorizar os sintomas, enquanto pensava melhor. Recobrando os sentidos, vi de canto de olho uma enfermeira feia, cansada, que muito possivelmente pensou em desmaiar, só hoje, pelo menos três vezes. Tive certeza de que me entenderia. Precisava tirar Paulo do quarto para conversar a sós com ela. Bingo! O filho! A prioridade de uma mãe, sempre, claro! Paulo! Cadê meu filho? Onde está meu filho? Está com a Dona Ruth, Ângela. Não, Paulo, ele detesta Ruth! Vai agora, fica com ele. Tá doida, Ângela? Não vou deixar você aqui. Paulo não vou sossegar enquanto você não tirar o menino da casa daquela velha porca. Eu me cuido aqui, estou bem, tem os médicos. Que deleite ver que a frequência cardíaca aumentava, boa atriz que sou, corroborando com toda a minha narrativa. A enfermeira feia, que dama. Vendo a situação, disse: Pode ir, seu Paulo, ela está em boas mãos aqui. Paulo me beijou a testa, disse que ia rapidinho, que voltava logo, que eu não me preocupasse e foi tirar o remelento da casa da velha pra depositar no cativeiro em que mora sua mãe, outra velha, tão feia e até mais porca que Dona Ruth, mas familiar. Quando o feio com que me casei deixou o quarto do hospital, me olhou a enfermeira como quem aguarda instruções sobre os próximos passos.
Como quer fazer? Me perguntou a enfermeira feia. De pronto confesso que não entendi. E ela perguntou, impaciente: Quer que dure quanto? Dure o quê? Porra! Me ajuda a te ajudar, como você tem várias e eu não tenho o dia todo. O recesso. Quer que dure quanto? Quer ficar quanto tempo longe da família? Umas horas, uns dias, pra sempre? Pra sempre, perguntei. É, tá crescendo muito essa. Como que fica? Ah, a gente fala que evoluiu né. Infecção hospitalar sempre vende muito. Dá três dias e a senhora tá liberada. Sai mais caro porque tem todo o trâmite né, alugar a gaveta, forjar a certidão, sepultamento. Se a senhora quiser tamo até com um serviço, desde a pandemia tá saindo muito, de dizer que o morto tá contaminado e deixar o caixão fechado, bom que a senhora ganha uns dias né. Mas tudo à parte. Sai à quanto essa brincadeira? Esse completão aí? Olha no pix faço preço bom pra senhora. No crédito tem uns jurinhos mas parcela até 15 vezes. Tá show. Vou fazer à vista, estava juntando pra festinha de cinco anos do menino, ou seis, não tenho certeza, bom que já tinha uma poupancinha. Foi tudo muito organizado, indico de olhos fechados, até porque era como eu estava mesmo. Mal o Paulo chegou e eu já estava ardendo em febre. A pressão baixíssima, fraqueza, tudo que comia vomitava. Mancha no corpo, dor nas articulações. Isso tudo sem eu sentir nada, só pra que Paulo visse. No segundo dia de internação já me afastaram dele. Sinto muito, seu Paulo, mas o Sr. não pode mais ficar aqui. É contagioso. Pimba, terceiro dia já tava tudo no esquema. Dia 16 de agosto fui dada como morta. Nem quis mais ver filho, marido, nada. Até me ofereceram, parece que também vende muito, essa coisa de ir ao próprio velório. Não quis nem saber, fui embora, tudo pra trás. Bendito seja o pedreiro que construiu a quina em que bati o dedinho pela primeira vez.

