Não tendo sido a primeira nem a última mulher de sua família a matar um homem, se contentou em ao menos ser a única que o fez por amor. Teve a feliz surpresa de vê-lo sem respirar no dia sete de maio de 2013. Foi imediatamente ao padre Celso confessar-se, como fazia regularmente, e com um sorriso de orelha a orelha lhe contou que o marido jazia espalhado pela casa de Pedra Azul em oito pedaços diferentes. Nos lugares que ele mais gostava, Padre! Foi lindo. Primeiro, segurei-o pelos cabelos e atirei aos ladrilhos da cozinha, que manchados do sangue da pancada, ficaram escandalosos, coisa de Adriana Varejão! Ele ficou meio zonzo e me olhou com a cara de sempre, a do Peixinho, que lhe rendeu o apelido. Nessa hora, padre, que coloquei a panela quente na cara dele, até ouvir as primeiras borbulhas. Acho que ainda estava acordado quando peguei uma faca de cozinha novinha e cortei lascas da pele, até removi a tatuagem que ele não gostava, da época de menino. Ele não dizia uma palavra, padre, não reagiu. E aí eu ia tentando, continuava. No começo não sabia exatamente que morreria hoje, muito embora sonhasse com isso há pelo menos três anos, mas Deus é que sabe de todas as coisas, né? Aí, padre, eu fui apoiando o corpo moribundo dele até a cadeira da sala e coloquei-o sentado. Já estava irreconhecível, um príncipe! Peguei uma sacola e colocava na cabeça dele por alguns segundos, até que nem que fosse por instinto a criatura me desse sinal de vida, ao que eu respondia com um afago, agradecendo. Peixinho sempre foi bom demais pra mim, sabe, padre? Bom demais. E isso me irritava porque o que eu haveria de fazer com um homem bom? Não tinha a menor experiência com isso, pra ser sincera eu nem sabia que existia. Nos filmes não tem, nos livros, lá em casa nunca tinha visto e todos os que tinham passado pela minha vida antes não o eram. Guardo por eles o maior carinho, padre. Tempo bom. Quando enjoei da sacola vi que ele ainda respirava, então eu devia ter ali pela frente mais umas seis horas de diversão. Tive que ir inovando, enfiava a cabeça num balde, colocava música alta demais, aquelas de pagodão baiano. Na hora da música eu pensei muito, viu padre? Porque eu fiquei com a dúvida: Como que eu vou perturbar o cara que não se perturba com nada? Lembro da primeira vez que traí ele, lá pra 2007, e deixei tudo pra ele descobrir: cueca do outro no carro, mensagem no celular. Quando já tinha uns três meses de traição eu contei pra ele. Ele respondeu: Se te faz bem.... Eu fiquei doida. No dia seguinte ele chegou em casa com uma caixa de bem-casados, meu doce favorito, que sempre reclamo que só consigo comer quando alguém se fode em algum lugar e dá festa. Ele mandou fazer. Ele amava minha família. Virou padrinho da minha sobrinha. Devoto de Santa Rita de Cássia por causa da minha mãe. Aí eu falava pra ele que eu era macumbeira, e ele ia no terreiro comigo. Só que eu não era macumbeira, padre. Aí eu falei que eu era Lula, depois virei Bolsonaro, e tudo ele ia atrás. Não queria que eu andasse sozinha de noite, que eu pegasse chuva, que eu pegasse peso, pagou todas as contas de restaurante desde que eu o conheci. Fazia massagem nos meus ombros. Tive bruxismo e ele aprendeu a fazer a placa, mesmo sendo contador. Quis alisar o cabelo, e ele alisou. Ele vestia amarelo, eu dizia que odiava amarelo, e ele voltava de azul. Nunca mais usou amarelo. Falei pra ele que queria ter filhos, e ele chorou de emoção, disse que queria, que ia ser nossa família, que eu era a mulher da vida dele. Desisti na hora, puta que pariu! Desculpa, padre. Dia seguinte voltei pra pílula. Aí falei pra ele que não ia mais ser mãe de jeito nenhum e que detestava criança. Ele respondeu que entendia e que essa decisão tinha que ser minha mesmo. Não dava mais não padre, era demais. Aí eu fui torturando ele, fazendo da vida dele um inferno, pra ver se ele separava de mim, me xingava, falava mal de mim pelas costas, pela frente, sei lá. Nada. Comecei a dormir fora de casa. Ele era alérgico à camarão, então segunda era bobó, terça empadão, quarta abará, tudo bem temperadinho. O bicho comia pra não fazer desfeita e depois ia sozinho pra Emergência ser medicado. Ele dizia que não gostava de mulher muito magra, emagreci. Aí começou a gostar. Engordei. Botei peito, tirei peito, raspei o cabelo. Ele adorava bicho, o franciscano, e esses dias chutei um cachorro na frente dele e ele não fez nada. Hoje eu acordei avessa, padre, não dava mais pra esperar. Não sei, tava agitada, impaciente. Aí fervi a água do café e joguei nas partes dele. Já tava na cozinha e começou tudo que eu contei do azulejo, etc. Acho que ele só morreu mesmo com o travesseiro, que no final eu já tava de saco cheio e asfixiei ele. Vi que não tava mais respirando e fiquei em êxtase. Melhor momento da nossa vida a dois. Falei pra ele: Benzinho, obrigada por tudo!!! Cortei duas pernas, dois braços, o tronco em dois e a cabeça no meio. Tudo com a motosserra que ele tinha comprado pra fazer móvel de madeira porque advinha, eu gostava de móvel de madeira. Tadinho, fiquei com pena, aquela casinha ali foi ele que subiu, já que eu gostava de passear aqui em Pedra Azul. Fui espalhando os pedacinhos dele nos cantos, pedindo a Nossa Senhora pra guardar ele em bom lugar. Acho que vou largar aquela casa pra ele, sabe padre? Largar tudo pra lá? Vou é viajar, arrumar confusão, gritar pros outros na rua. Tô feliz demais. Nem sei porque tô tomando o tempo todo do senhor com isso. Confessar né? Então padre o que eu queria falar mesmo é desse lance do cachorro. Tadinho, criatura de Deus, né? E eu maltratei só pra atingir o Peixinho. Deus que me perdoe! A pessoa pra maltratar um bichinho indefeso tem que ser muito ruim. O senhor me dá o perdão, padre? Não vou conseguir viver com esse fardo por muito mais tempo. O padre Celso ficou num silencio eloquente por uns três minutos. Padre? Tá aí? Três pai nossos e três ave marias, minha filha. Deus te abençoe, padre.
Discussão sobre este post
Nenhuma publicação

